quarta-feira, 24 de julho de 2013

Alvarinho da Campanha Gaúcha


Provei ontem o Alvarinho Quinta do Seival 2012, feito pela Miolo no município de Candiota, Campanha Gaúcha. Quem diria que o Brasil faria Alvarinhos! E esse ganhou tipicidade tupiniquim, com a predominância de notas olfativas de frutas tropicais. Em boca, conjugou agradável frescor e maciez, esta última resultante da fermentação e estágio do vinho por 10 meses em barricas novas de carvalho francês, sofrendo sucessivas bâtonnages (agitação das borras finas pós-fermentativas). Um processo menos comum no Minho e na Galícia, as grandes pátrias do Alvarinho. Mas também utilizado por alguns enólogos, que fermentam e estagiam seus Alvarinhos em madeira, em busca de outros estilos. O resultado, no caso desse Miolo, é um vinho gostoso, que harmonizou muito bem com uma "Quenelle de Peixe em Bisque de Camarões", preparado pela chef Joyce Francisco e sua equipe, no Joy Joy Bistrot, em Florianópolis. Uma noite em que foram apresentados por Adriano Miolo vários vinhos da vinícola, entre eles o Shiraz Testardi 2012, do Vale do São Francisco, e o Lote 43 safra 2011, da Serra Gaúcha. O jantar, em toda sequência, estava muito saboroso.

Sou fã da Alvarinho. Concordo com o crítico português Rui Falcão: essa é uma das grandes uvas brancas do mundo, ao lado da Chardonnay, Sauvignon, Chenin Blanc e Gewürztraminer. No Minho seus vinhos são frutados, cítricos, florais e minerais, com boca fresca e intensa. Na Galícia, são frescos, frutados, cítricos, igualmente intensos. Já provei Alvarinhos feitos no Douro e até no Alentejo. O Uruguai, mais especificamente a família Bouza, faz um Alvarinho muito gostoso também aqui pelo Cone Sul. Uma casta que envelhece muito bem.

Tive a honra de poder integrar o juri do Alvarinho International Wine Challenge 2011, realizado em Melgaço, no Minho, Portugal. Numa degustação, dentro da programação, fomos brindados com Alvarinhos com idades de até 19 anos (matéria "Alvarinho, Vinhos com Vocação para a Guarda", no joaolombardo.blogspot.com). Entre os vinhos estavam algumas safras do Soalheiro e Dona Paterna. Todos fantásticos. Minerais, provocativos, intensos e com a acidez muito viva. Gosto muito dos Alvarinhos de Anselmo Mendes, um dos enólogos portugueses que conhecem profundamente e trabalham muito bem as qualidades dessa casta. Aliás, Anselmo anda pela Campanha Gaúcha e pela serra de Santa Catarina, onde presta assessoria para as vinícolas da família Hermann, proprietária da importadora Decanter, de Blumenau. Então, vou fazer uma torcida: que venham mais Alvarinhos brasileiros para, ao lado dos vinhos de além mar, possibilitarnos conhecer as várias características dessa uva pelo mundo!

sábado, 20 de julho de 2013

Evolução e Revolução na Vitivinicultura Chilena



Vinhedos da Vik, em Milahue, Colchagua (foto de divulgação)

A vitivinicultura chilena vive um período de grande movimentação e transformações, mudanças que se intensificaram nos últimos cinco anos. País de vitivinicultura tradicional, com mais de 450 anos, os produtores andinos decidiram, neste milênio, investir em novos estilos de vinhos. Eles começaram a plantar uvas em regiões mais frescas, áreas costeiras, vales extremos e zonas aos pés da cordilheira dos Andes. Os resultados estão sendo vistos em vinhos com maior expressão de fruta e menores teores alcoólicos, por exemplo. E em varietais como Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Carignan, Petit Verdot  e Syrah, castas que até meados da década passada tinham pouca ou nenhuma expressão no país.

“A tendência no Chile, hoje, é buscar zonas diferentes. Atualmente, as zonas frias estão em alta, principalmente aquelas próximas à costa”, afirma Joana Pereira, enóloga da viña Bisquertt Family Vineyards. Localizada no Vale de Colchagua, a empresa cultiva as castas clássicas francesas e produz as linhas de vinhos Petirrojo Reserva, La Joya, Ecos de Rulo Single Vineyard, o corte Clay Syrah/Cabernet Sauvignon e o Tralca, um corte de Cabernet, Carménère e Syrah. Até quatro anos atrás, La Joya era a única marca da empresa. Mas a Bisquertt está investindo forte nesse novo momento.

Errazuriz (arquivo de João Lombardo)

Na centenária Errazuriz não é diferente. A empresa, responsável por marcas importantes como Seña, Aborleda, Viña Chadwick e Caliterra, além da própria Errazuriz, atravessa uma fase de mudanças, nas palavras do enólogo Pedro Contreras. “Está havendo uma evolução e uma revolução no Chile. Está ocorrendo a busca por lugares extremos para produzir vinhos de caráter”, afirma. Para Contreras, aconteceram mudanças importantes nos últimos três anos, no país. Essas mudanças estão alterando o perfil de parte dos vinhos chilenos, normalmente muito estruturados e marcados pelas notas vindas das barricas novas de carvalho. Estudos de solo estão dentro dessa fase de aprendizado, nesse novo momento. Assim como a melhor utilização da irrigação, das barricas etc.

Na também centenária Viña Santa Carolina, além da aposta nos vales mais frescos, está se investindo na renovação de castas antigas, como a Carignan. A vinícola tem no mercado seu Santa Carolina Dry Farming Carignan 2009, elaborado com uvas do Vale de Cauquenes. Os vinhedos estão a 450 km ao sul de Santiago, no chamado “secano costeiro”. As vinhas são antigas, têm cerca de 70, 80 anos e não são irrigadas. Elas também não têm condução, são pequenos arbustos, chamados de vaso, na Espanha, ou alberello, na Itália. O resultado é um vinho muito fresco, repleto de frutas vermelhas, notas de pinheiro e especiarias doces. Um vinho frutado, em boca, com corpo agradável e taninos leves.

“Essa é uma variedade potencial. Mas a produção é muito pequena. É, portanto, um vinho para mercados diferentes”, afirma o enólogo Iván Martinovic T, da Santa Carolina. A vinícola também investe em um vinho de Mourvèdre e ainda nas castas Syrah e Petit Verdot, como varietais.

 Chilcas País (foto arquivo de João Lombardo)

A Via Wines, no Vale do Maule, é outra empresa que busca dar vida nova à uva País, também conhecida como “Criolla” na Argentina. A bodega tem um varietal sob o rótulo Chilcas feito com a uva cultivada no interior do Vale do Maule. A casta, que seria a mesma Listán Prieto espanhola, foi introduzida no Chile no século XVI. E hoje é tratada como uma uva dos velhos tempos. “Queremos recuperar essa variedade, para fazer um vinho que seja rico”, afirma o enólogo chefe da bodega, Camilo Viani. O vinho produzido com ela é agradável, frutado, com sutis notas de especiarias como a pimenta e toques terrosos. Tem boa acidez, médio corpo e taninos presentes, sem serem agressivos. O resultado ficou bom. Miguel Torres, nome famoso na vitivinicultura chilena, também tem um espumante à base de País. Empresas quebrando o preconceito, provocando uma reviravolta na viticultura de seu país.

Em outra vinha muito antiga, a Santa Rita, a enóloga Cecília Torres afirma que o Chile tem grande potencial para fazer coisas diferentes. “Estamos como os adolescentes, numa busca constante. E vai chegar uma hora em que atingiremos a maturidade. E então teremos uma personalidade Chile”, afirma a enóloga. Ao comentar sobre a volta da Carignan, ela disse achar interessante os vinhos dessa casta produzido em áreas costeiras. Cecília acredita haver espaço para outras uvas no país. Por exemplo, para castas portuguesas. Segundo a enóloga, o sul do Chile é uma direção importante para os viticultores. “Temos que nos mover para lá”, sugere.

Apesar de falar em novas uvas, Cecília Torres faz questão de mencionar a casta da tradição chilena, o Cabernet Sauvignon. “Trata-se de uma uva muito completa e complexa. Uma casta de muita elegância e potencial para envelhecer, que pode parar em qualquer mesa do mundo”. Essa é uma grande uva para a Santa Rita, que gera vinhos que contruíram o nome e o prestígio da casa. E também para o Chile. O Cabernet Sauvignon chileno é um vinho com personalidade própria, agradável, com caráter. O que não impede as empresas de investirem em outras uvas e ousar.

 Vinhedos de Carménère na Vik (foto de divulgação)

Até mesmo o Carménère é alvo de mudanças. Casta que gera vinhos com notas remetendo a frutos maduros, especiarias e toques vegetais, algumas bodegas estão produzindo Carménères mais frescos, com fruta viva e praticamente sem o tradicional herbáceo que faz parte do perfil organoléptico dos vinhos. É o caso da Viña Maquis, localizada no Vale de Colchagua. Os 140 hectares de vinhedos da empresa estão localizados entre os rios Tinguiririca e Chimbarongo. “É um lugar único. Os solos têm alto conteúdo de argila com gravas, que asseguram excelente drenagem”. afirma Ricardo Rivadeneira Hurtado, enólogo e diretor da empresa.  Segundo ele, essa condição permite à uva Carménère amadurecer mais cedo e, portanto, ser colhida também mais cedo. No Chile, a Carménère costuma ser colhida até maio. Na Maquis, a colheita ocorre em março.

“Aqui os Carménères são especiais”, acrescenta Hurtado. “A maioria dos Carménères do Chile está representada por vinhos maduros, com taninos redondos e gosto mais a geléia do que a fruta fresca. No nosso caso, buscamos vinhos frescos, com mais aromas frutados e florais, grau alcoólico menor e acidez natural um pouco mais elevada”, afirma o enólogo. Um estilo de Carménère diferente.

Patrick Valette (ex-Château Pavie) e Gonzague de Lambert (ex-Château de Sales) estão trabalhando na produção de um vinho de alta qualidade no Vale de Cachapoal, o Vik. Uma vinícola de propriedade do empresário norueguês Alexandre Vik, instalada dentro de uma área de 4.325 hectares. Um vinhedo de 390 hectares que, para ser plantado, aguardou a realização de 4.500 perfurações, em diferentes áreas da propriedade, para análises de solo. O objetivo era encontrar os melhores microterrenos para cultivar cada variedade. Ali estão plantados Cabernet Sauvignon, Carménère, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Uvas utilizadas na produção do Vik, um vinho de assemblage elaborado através de uma vitivinicultura de precisão.

 O Vik (foto de divulgação)

“O Chile tinha vinhos mais industriais, necessários. O país ofereceu e oferece muitos bons produtos, por preços razoáveis. Mas, ao mesmo tempo, o Chile está passando por uma evolução”, afirma Patrick Valette. O enólogo comenta que todo mundo está acostumando a olhar o Chile de Norte a Sul. Ele prefere ver o país de Leste a Oeste. Ou seja, analisar o país vitícola sob o ponto de vista da influência do Oceano Pacífico e da Cordilheira dos Andes sobre as vinhas. Para o enólogo, essa influência é mais importante para a vitivinicultra, a que faz a diferença no quesito terroir.

Patrick Valette afirma que, hoje, os profissinais do vinho no Chile respeitam muito mais o conceito de terroir que no passado. “Eu diria que hoje há um conhecimento e uma prática do conhecimento”, afirma. Segundo ele, o país se transformou num produtor muito estruturado e profissional. “O resultado é um trabalho muito mais preciso do que no passado”. A Vik é um exemplo. E também os vinhos de vinícolas que estão investindo nessa nova fase. Vinhos, como se disse, mais frescos e frutados, menos alcoólicos, mais gastronômicos. Um país vitivinícola consolidado, num processo de redescobrimento e transição.

(Matéria escrita por mim e publicada no jornal Vinho & Cia, na edição Inverno 2013)



quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Lisbon Revisited": Café Nicola



O Café Nicola é um dos lugares emblemáticos de Lisboa. Ele fica no Rossio e, sentado junto a uma de suas mesas, do lado de fora, é possível admirar as muralhas do Castelo de São Jorge e a região da Baixa Lisboeta. E, ali, provar algumas delícias portuguesas, como uma boa fatia de queijo cremoso da Serra da Estrela, de entrada. E o Bacalhau a Nicola, prato da casa, onde uma posta alta e bem assada de bacalhau chega à mesa mergulhada em suculento e saboroso molho de natas, guarnecida com batatas crocantes. E, claro, acompanhada de um (ou uns?) bom copo de vinho. 

Foi um italiano de nome Nicola o primeiro dono do estabelecimento, conhecido, inicialmente, como Botequim do Nicola. Escritores, poetas, artistas e malditos tornaram-se habitués do local. Entre eles, Manuel Maria Barbosa du Bocage, o famoso poeta Bocage. Nos fundos do salão interno do café há uma estátua do Bocage, sobre um pedestal alto. Também conhecido como o Boca do Inferno, Bocage escreveu sátiras mordazes contra tudo e todos. Satirizou, inclusive, situações envolvendo ele próprio. Conta-se que certa noite, tendo saído do Nicola, foi abordado por um homem que, com uma arma em punho apontada para ele, perguntou: "quem és, de onde vens, p'ra onde vais"? Bocage, com a irreverência de sempre, teria respondido: "sou o poeta Bocage, venho do Café Nicola e vou para o outro mundo se disparas a pistola". Uma pitada de bom humor, que faz parte das histórias que cercam o agradável Café Nicola, com seu gostoso cardápio e boa carta de vinhos, na movimentada área central de Lisboa!

sábado, 8 de junho de 2013

Guatambu: vitivinicultura de precisão na imensidão do pampa




Foi oficialmente inaugurada no último dia 7 de junho em Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, a Guatambu Estância de Vinhos. A vinícola familiar, comandada por Valter José Pötter e sua filha Gabriela, com a participação das irmãs Isadora, Mariana e Raquel, é fruto de um projeto que começou há 10 anos, com a formação de um vinhedo de Cabernet Sauvignon em meio a uma fazenda de criação de gado de raças britânicas, ovelhas e onde se plantam cereais como arroz, milho e soja. Hoje, são 22 hectares de videiras das variedades Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Pinot Noir, Tempranillo, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewürztraminer. Vinhedos cultivados sobre solos pedregosos, em planícies e suaves colinas. Videiras abençoadas pelo protetor e refrescante vento Minuano. Micro terroirs minuciosamente pesquisados dentro de uma propriedade de 4,5 mil hectares, para buscar os melhores frutos e, com eles, produzir vinhos de qualidade.

A Guatambu colocou, numa degustação vertical, para um grupo de jornalistas brasileiros, o Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon de seis safras: 2007, 2008, 20092011, 2012 e 2013. Esse é o vinho emblemático da empresa. Também foi colocado em degustação um vinho ainda em amadurecimento, o Épico, resultado de um corte de Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot. No corte foram mesclados vinhos das safras 2011, 2012 e 2013. E foram servidas ainda as safras 2011 e 2012 do espumante Guatambu Nature, produzido pelo método Champenoise. Os espumantes revelaram notas frutadas, toques florais e de leveduras. O 2011 apresentou um agradável tostado e uma complexidade própria do envelhecimento. O 2012 estava mais vivaz. Em boca, boa cremosidade e acidez. Os Cabernets mostraram evolução vitícola, consistência enológica e uma tendência, nas novas safras, a caminho de um estilo mais novomundista. Revelaram agradável frescor, leque aromático com notas frutadas e especiadas, bom volume em boca e taninos elegantes. O Épico apresentou estrutura, complexidade aromática e uma bem-vinda promessa de longevidade.


Foi lançado, por ocasião da inauguração da vinícola, o Tannat Rastros do Pampa 2012. Um vinho fresco e frutado, diferente de Tannats franceses e uruguaios. Um excelente companheiro para pratos mais estruturados elaborados com carnes de gado, ovelha e cordeiro. Mas também agradável para o copo e para a conversa, por não se tratar de um Tannat pesado, corpulento. Foi lançado também o espumante Guatambu Rosé Brut, um corte de Gewürztraminer com Pinot Noir, elaborado pelo método Champenoise. Um produto alegre, frutado e floral. Um vinho do prazer, companheiro de petiscos leves e preparos com frutos do mar. A vinificação está a cargo dos enólogos Alejandro Cardozo e Javier Gonzalez.

A Guatambu entra no mercado com um projeto consistente. A vinícola é auto sustentável. Na bela edificação, em estilo espanhol colonial, foram utilizados tijolos e materiais de demolição de casas da Campanha. A energia elétrica já vem parcialmente e virá totalmente da luz solar. A água é captada das chuvas, tratada e reaproveitada. A empresa pratica o Plano de Alimento Seguro (PAS).

A estrutura comporta espaços para o enoturismo e enograstronomia. Há um amplo salão com churrasqueira, para a recepção de visitantes, degustações e realização de eventos. A idéia e combinar a culinária típica regional (que contempla a tradicional parrilla e pratos como espinhaço de ovelha) com os vinhos produzidos na Estância. E também oferecer atividades como cavalgadas, por exemplo.

O espaço enogastronômico 

Com 100 mil garrafas de vinhos disponíveis para o mercado, este ano, e projeção para 170 mil, em 2014, a vinícola dedica 50% da produção aos espumantes. Os estilos são Extra Brut, Nature, Brut, Demi-sec e Rosé, sob os rótulos Gatambu e Poesia do Pampa. Os outros 50% da produção vêm dos vinhos tranquilos. São eles os tintos Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon, Tannat e Merlot; o Luar do Pampa, um varietal de Gewürztrminer, e o Vinho da Estância, um produto clássico, corte de Cabernet Sauvignon, Tannat e Tempranillo. Tem ainda o Épico, que levará um pouco mais de tempo para chegar ao mercado. Ao todo, são dez rótulos disponíveis hoje. Uma vinícola para reforçar a presença e o estilo da Campanha Gaúcha no cenário do vinho brasileiro. Uma empresa que conjuga a simplicidade do pampa com a mais moderna tecnologia vinícola disponível no planeta.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Carménères mais frutados


O Carménère é um vinho que nunca chamou tanto minha atenção. Apesar do perfil macio e agradável, sempre achei um pouco destacada aquela tradicional nota verde dos varietais elaborados com a uva. Pude provar, agora em viagem pelo Chile, Carménères diferenciados, mais frescos, frutados, especiados e até mesmo florais. Vinhos onde o toque vegetal, às vezes imperceptível, às vezes sutil e bem integrado, somou-se às demais camadas aromáticas, compondo uma rica complexidade. Interessante saber que os produtores chilenos continuam trabalhando a casta, identificada em meio aos vinhedos de Merlot, há cerca de 20 anos. É muito bom saber que eles estão buscando maior frescor e leveza nos varietais produzidos com ela. É uma casta cujos vinhos ainda estão em construção. Não que eles estejam sendo maquiados, muito pelo contrário. Há um trabalho de encontrar novos terroirs para as uvas. E, assim, produzir novos estilos de Carménères, a partir de uvas diferenciadas. Vinhos mais vibrantes. O que muda minha opinião a respeito desses produtos. Acima, o Carménère Maquis, cujas uvas são colhidas em março, dois meses antes do período em que a grande maioria dos produtores colhe, em maio. Isso, pela particularidade do terroir onde está o produtor, em Colchagua. É pena que esse vinho ainda não tenha chegado ao Brasil.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Peru e Vinhos



O peru é um símbolo nas festas de final de ano. A ave costuma fazer a felicidade e alegrar o apetite das famílias, nas comemorações natalinas. E, apesar da tradição de se comer mais carne suína na passagem de ano (um animal que fuça para frente), muita gente prepara também a ave no réveillon. E a serve bem recheada de farofa e decorada com frutas frescas, frutas secas e em calda.

A carne de peru pode ser muito bem acompanhada por vinhos. Para escolher o vinho adequado, deve-se ficar atento às sensações aromáticas e gustativas do assado. E também de tudo que o acompanha. E buscar um vinho sinérgico.

A carne de peru é magra. A gordura está concentrada na pele. Portanto, não são necessários vinhos com elevados teores de acidez e de álcool, elementos que atacam gorduras e limpam o paladar. Nem vinhos tânicos, pensando em tintos. Taninos são parceiros de preparos mais gordurosos.

A carne de peru tem tendência doce, traz ao paladar uma lembrança doce. Nesse caso, os vinhos macios são os mais indicados. Vinhos mais ácidos, diante de uma tendência doce, podem elevar, no paladar, a sensação de acidez. E não ficar agradáveis.

O peru costuma ser servido com frutas secas, como passas, ameixas e figos. Essas frutas tendem também ao doce. Outras frutas trazem lembranças cítricas e tendência sutilmente ácida, como os damascos. Vinhos macios combinam tanto com frutas secas como com frutas com notas um pouco mais ácidas. E não brigam com doçuras vindas de fios de ovos e cerejas ao maraschino.

Normalmente, o peru é recheado com farofa. A farofa leva uma boa dose de gordura (manteiga ou azeite) e pode ser feita com bacon e/ou miúdos. Gordura e untuosidade pedem uma ponta de acidez, nos vinhos, para desfazê-las. E um bom teor alcoólico e/ou taninos, para enxugá-las.


O peru, com o conjunto de sabores que o acompanha

Com base nisso, concluímos que a carne de peru combina com vinhos macios, com bom teor alcoólico (a partir de 12,5%, por exemplo), média estrutura e, de preferência, alguma passagem por barricas de carvalho, o que aumenta a complexidade da bebida.

Pensando em vinhos brancos, aqueles feitos com a uva Chardonnay, com passagem por barricas, são excelentes companheiros para o peru assado. Mas há outros: um italiano Vernaccia di San Gemignano, portugueses da uva Encruzado e espanhóis de Macabeo, também com passagem pelo carvalho. Algumas sugestões em branco, para o peru.

Ao pensar em tintos, vale a mesma regra: são indicados tintos macios, com acidez equilibrada e não tânicos. Esses tintos podem ter uma pequena passagem por barricas, mas não excessiva. O teor alcoólico pode partir de 12,5%.

Um tinto fresco, leve, com taninos macios e bom teor alcoólico, é a sugestão. O Pinot Noir é um bom começo de conversa. Um Pinot Noir do novo mundo, neozelandês, sul-africano, chileno ou argentino. E também um francês ou italiano, não muito estruturado. Um vinho jovem de Tempranillo, um italiano de Sangiovese, um macio Dão português são outras opções a serem colocadas à mesa, ao lado do peru. E de outras aves assadas, inclusive caças de pena.

Não devem ser descartadas opções que contemplem o gosto pessoal de cada um. Sempre cuidando para não colocar um tinto tânico demais ou um branco ácido demais ao lado do assado. Para ver uma receita de Peru Assado, acesse programapãoevinho.blogspot.com. Para ver o preparo da receita e vinhos para acompanhar, acesse:

http://youtu.be/khAALFQzGhw

Saúde e bom apetite!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alvarinhos, vinhos com vocação para a guarda


A Alvarinho, durante a maturação

Os vinhos de Alvarinho ainda são pouco conhecidos pelos brasileiros. Casta tipicamente ibérica, a Alvarinho gera vinhos cheios e intensos, principalmente na região portuguesa do Minho e espanhola da Galícia. Produtos complexos e estruturados, com uma capacidade de envelhecimento impressionante. Vinhos que ganham com o tempo e nada devem, em qualidade, para castas brancas grandiosas, como a Chardonnay, a Sauvignon, a Chenin Blanc e a Riesling.

Pude atestar a longevidade dos Alvarinhos em junho passado, em viagem a Portugal, ao participar, como jurado, do Alvarinho International Wine Challenge. O concurso aconteceu na cidade de Melgaço, no Minho. Foram avaliadas quase 70 amostras de Alvarinhos, produzidos em Portugal, Espanha, Estados Unidos e Uruguai. Foram atribuídas 14 medalhas de Ouro, dez delas para vinhos portugueses e outras quatro para vinhos galegos. E concedidas também 24 medalhas de prata e 13 de bronze.

Paralelamente ao concurso, foi promovida uma degustação vertical de Alvarinhos, a partir da safra 1994. A degustação aconteceu na vinícola Quinta de Melgaço. Foram colocados em degustação vinhos das marcas Soalheiro (safras 1994, 1995 e 2005), Dona Paterna (1995, 2003, 2005 e 2007), Quinta do Regueiro (1995, 2002, 2003, 2004, 2005, 2007), Quintas de Melgaço (2001, 2002, 2003, 2004, 2007), Castrus de Melgaço (2005 e 2006), Poema (2005), Casa de Cerdedo (2006), Terras da Aldeia (2006), Reguengo de Melgaço (2007), Quinta Pigarra (2009) e Quinta das Alvaianas (2009). As impressões foram surpreendentes.

De um modo geral, os vinhos mostraram forte presença mineral, no olfato. Apresentaram notas frutadas maduras, nos mais velhos, e frutas frescas, nos mais jovens. O floral estava presente, de maneira mais ou menos intensa, nos vinhos.

No paladar, impressionante a preservação da acidez e, conseqüentemente, do frescor, mesmo nos vinhos mais velhos. Notas frutadas e minerais, em boca, contribuíram para a constatação da harmonia, nos vinhos. Muitos deles eram untuosos, gordos, com final longo e intenso.

Conversando com o critico português de vinhos, Rui Falcão, ele disse que as diferenças entre os Alvarinhos de Melgaço e da Galícia decorrem do clima. Segundo Falcão, nas Rias Baixas, o clima é mais oceânico, mais fresco e com menos sol. Em Melgaco, o clima é mais continental, com mais sol e calor. Isso leva a uma uva mais madura. De acordo com o critico, os Alvarinhos galegos têm aromas mais frescos e frutados. E os portugueses, remetem a frutas mais maduras e a notas minerais mais marcantes.

Impressionaram-me, muito, o Alvarinho Soalheiro 1994 e o Dona Paterna 1995. Pelo envelhecimento com elegância e a preservação da acidez e estrutura. Entre os inebriantes aromas evoluídos, que passavam por frutas muito maduras e notas de frutas secas, impressionou-me a grandiosidade dos aromas minerais dos dois vinhos. Na boca, o corpo dos vinhos estava totalmente preservado e a acidez mantinha força e presença no equilíbrio gustativo. Uma vocação para o amadurecimento em garrafa estimulante, que incentiva a compra e a guarda de Alvarinhos produzidos no Minho.

Os Alvarinhos mais jovens, a partir de 2005, mostraram frutas mais frescas, notas cítricas e, em alguns casos, toques vegetais. Os tons minerais também se mostravam ao olfato, com menos intensidade que nos Alvarinhos velhos. Uma mostra de que é possível beber Alvarinhos de diversas idades. E, em cada idade, descobrir a riqueza dessa casta e dos vinhos, intensos e longevos.

Abaixo, notas de prova de alguns Alvarinhos provados na Quinta de Melgaço:

· Soalheiro 1994 – Cor amarela com reflexos dourados. Cristalino, consistente. Nariz intenso, com aromas evoluídos de fruta muito madura, frutas secas, discretos florais, notas amendoadas e minerais marcantes. Fresco em boca, com acidez firme e final muito longo.

· Dona Paterna 1995 – Cor amarelo com reflexos dourados. Também denso e cristalino. Nariz igualmente maduro, com agradáveis notas frutadas, sutis florais e amendoados. E toques minerais marcantes, destacados, lembrando, inclusive, petróleo. Untuoso, com final vibrante em boca.

· Soalheiro 1995 – Cor amarelo com reflexos dourados. Límpido, consistente e cristalino. Nariz com frutas maduras, toques amendoados e leves florais. Mineral marcante. Boca fresca, perfeita. Leve gás. Frutado, amendoado, gordo e infinito em boca.

· Quinta do Regueiro 1999 – Cor amarelo-dourado, cristalino. Nariz com frutas tropicais maduras, floral de camomila e mineral intenso. Boca fresca, frutada, longa.

· Quintas de Melgaço 2001 – Amarelo-dourado intenso, límpido. Nariz evoluído lembrando notas medicinais e minerais. Frutas tropicais maduras (manga), notas amendoadas. Fresco e mineral também, com um corpo de agradável intensidade.

· Quintas de Melgaço 2002 – Amarelo com reflexos dourados. Consistente e límpido. Nariz elegante e intenso. Notas minerais marcantes, lembrando a petróleo, toques de frutas maduras (manga). Boca fresca, intensa e mineral. Excelente evolução.

· Quinta do Regueiro 2002 – Amarelo-dourado, límpido. Nariz com notas minerais e frutas muito maduras, como o pêssego. Floral delicado. Boca fresca e mineral, com boa intensidade.

· Quintas de Melgaço 2003 – Dourado cristalino. Nariz muito intenso, com notas de frutas frescas e maduras, toques florais e um bom mineral. Boca fresca, com expressão frutada e nota mineral.

· Dona Paterna 2003 – Amarelo dourado, límpido. Nariz com lembranças medicinais, notas levemente frutadas, floral. Boca fresca e untuosa.

· Castrus de Melgaço 2005 – Amarelo dourado, consistente, límpido. Nariz com elegante mineralidade, notas de frutas amarelas maduras, floral. Boca intensa com frutas maduras e mineralidade.

· Quinta do Regueiro 2005 – Amarelo-dourado, límpido e cristalino. Nariz mineral, com notas de frutas tropicais maduras e florais de jasmim. A boca confirma a fruta e o mineral.

· Soalheiro 2005 – Palha-verdeal, límpido, brilhante. Nariz mais fresco com notas frutas e cítricas lembrando a carambola. Floral de camomila, mineral. Bocar fresca, frutada, longa.

· Terras da Aldeia 2006 – Palha-verdeal, límpido. Notas de frutas frescas, brancas e cítricas. Discretos aromas minerais. Boca com excelente frescor e boa fruta.

· Casa de Cerdedo 2006 – Amarelho-palha verdeal. Nariz com notas frutadas frescas e florais e minerais com lembrança de petróleo.

· Castrus de Melgaço 2006 – Palha-dourado. Nariz com notas de frutas tropicais lembrando a manga, floral e mineral. Frescor firme em boca.

· Reguendo de Melgaço 2007 – Palha com reflexos dourados, cristalino. Nariz com frutas amarelas como a manga, notas cítricas, minerais. Boca fresca, com fruta tropical e acidez bastante agradável.

· Quinta do Regueiro 2007 – Palha com reflexos amarelados. Tropical em boca, lembrando a frutas como o maracujá. Boca fresca, leve, jovial. Vinho agradável.

· Quinta Pigarra 2009 – Palha cristalino. Nariz elegante, com notas cítricas e frutadas, aromas minerais e florais de camomila. Boca com agradável acidez, frutada e mineral. Longo e intenso.

· Alvaianas 2009 – Amarelo palha límpido. Aromas de frutas frescas de caroço, floral de jasmim com uma agradável lembrança de dama da noite. Fresco, frutado e intenso em boca.