sábado, 3 de agosto de 2013

Real Companhia Velha e seus vinhos do Douro




O vinho do Porto é um ícone da vitivinicultura portuguesa. E o Douro, uma região vinhateira símbolo no norte de Portugal, a primeira área de vinhos a ser demarcada no mundo. Foi a partir da Fundação da Real Companhia Velha, em 1756, que a demarcação, promovida pelo Marquês de Pombal, aconteceu na região. Uma iniciativa que marcou um divisor de águas na produção de vinhos, na Europa. Uma forma de garantir a autenticidade, tipicidade e a qualidade de uma área produtora. E seus vinhos, é claro! Nessa postagem, você poderá ver com alguns detalhes o que é o Douro e como aconteceu a demarcação.

O Douro

A história do Douro é muito antiga. O Vale do Douro foi cavado na rocha pela ação da erosão. Apesar de ser mais famoso em solo português, o Douro nasce na Espanha, na província de Sória, nos picos da Serra do Urbião, na região de Castilla Y Leon. Ali, se chama Duero e empresta seu nome a uma importante denominação espanhola de vinhos, a Ribera del Duero. No entanto, a característica dos vinhos da Ribera é diferente dos vinhos do Douro. A diferença começa pelos solos. Na Espanha, as videiras crescem sobre solos majoritariamente calcários e arenosos, diferentes do solo de xisto das margens portuguesas.


A estrutura rochosa que forma as encostas do Douro português data de cerca de 600 milhões de anos. Dentro dessa geografia, com clima extremo de dias extremamente quentes e noites frias, nasceu a região vitivinícola do Douro, uma obra dos homens. Ali já se faziam vinhos entre os séculos III e V. Mas a história da bem sucedida da região começou há cerca de três séculos.

O nascimento, no Vale do Douro, da primeira região demarcada de vinhos do mundo foi um marco na história da vitivinicultura global. A partir do Douro, nasceram outras regiões demarcadas de vinhos pelo planeta. Uma prática hoje materializada nas Denominações de Origem Controlada, as DOCs, uma importante referência na classificação dos vinhos europeus. E que agora começa a chegar ao novo mundo.

A Real Companhia Velha

Visitei, em Vila Nova de Gaia, a Real Companhia Velha. A empresa, inicialmente conhecida também como Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Auto Douro, foi criada no dia 10 de setembro de 1756, por alvará Régio do Rei D. José I. Ela nasceu sob o comando do então primeiro-ministro português, Sebastião José de Carvalho e Mello, o Marquês de Pombal. A companhia reunia os principais lavradores do Alto Douro e os chamados “homens bons” da cidade do Porto. Sua função era sustentar a cultura da vinha na região do Douro e garantir a qualidade do vinho do Porto, muito consumido, à época, pelo mercado inglês.


A partir da criação da companhia se fez a demarcação da região do Douro. Entre os anos de 1758 e 1761 foram colocados, nas propriedadas do Douro, 335 marcos de pedra com a designação Feitoria. Os vinhos de Feitoria eram os produtos de melhor qualidade, os DOCs da época. Só eles podiam se exportados para a Inglaterra. Na entrada da sede do Instituto do Vinho do Porto, na cidade do Porto, há um marco pombalino em exposição, igual àqueles utilizados na época da demarcação. Em 1907, a demarcação foi estendida ao Douro Superior.

A Região Demarcada do Douro

Hoje a região demarcada do Douro se estende por uma área de 250 mil hectares. As videiras frutificam em pouco mais de 18% desse território. Elas somam cerca de 46 mil hectares, divididas pelas sub-regiões do Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior. Os vinhedos mais antigos, cerca de 24 mil hectares, construídos sob patamares, são considerados patrimônio da humanidade.


Nesses patamares frutifica uma grande diversidade de uvas. O número gira em torno de uma centena de castas. No entanto, 29 são recomendadas na produção dos vinhos locais. Entre as tintas, as mais importantes são a Tinta Roriz, Touriga Franca, Tinta Amarela, Tinto Cão, Tinta francisca, Bastardo e a Touriga Nacional, esta ultima cultivada em todo o país. Entre as brancas, Viosinho, Rabigato, Malvasia Fina, Gouveio e Esgana Cão. Há muitos vinhedos mistos na região, com castas variadas plantadas no mesmo vinhedo. Uvas, inclusive, desconhecidas. Uma vez o produtor Domingos Alves de Sousa contou-me que tem, num de seus vinhedos, uma uva branca que desconhece. A ela deu o nome de Branca sem Nome. Isso torna o fator microterroir muito importante. Muitas quintas produzem vinhos únicos, em função desses vinhedos antigos, compostos por diversas variedades.

Do império para o mercado

A Real Companhia Velha manteve-se vinculada ao estado português por outros cinco reinados. Em 7 de dezembro de 1865, ela perdeu seus chamados privilégios majestáticos e tornou-se uma empresa normal. Mas leva consigo a história, dentro dos velhos tóneis e barricas que guardam o ouro do Douro. O armazém da Real Companhia Velha é um local onde se respira o Douro.  As fileiras de barricas guardam os Portos colheitas, portos com idades e os Vintages, os grandes vinhos safrados. Pelas janelas do armazém, a luz oferece uma claridade tênue, o necessário para iluminar, sem interferir na cor dos vinhos. Segundo os atuais proprietários a vinícola é a mais antiga em operação em Portugal.


As garrafas dos vinhos do Porto da Real Companhia Velha guardam o glamour dos velhos tempos. Uma empresa que hoje tem seis propriedades em Portugal: Quinta das Carvalhas, Quinta do Cidrô, Quinta dos Aciprestes, Quinta do Casal da Granja, Quinta do Síbio e Quinta do Corval. Ao todo, são 550 hectares de uvas próprias, com as quais são produzidas 8 milhões de garrafas de vinhos do Porto e Douro DOC, exportados para mais de 40 países, entre eles o Brasil. Para isso, a empresa tem cerca de 200 marcas registradas. Vinhos, alguns deles, bastante conhecidos dos brasileiros. Entre eles, o Porca de Murça e o Grandjó.

Primeira importação em 1756

A Real Companhia Velha tem uma antiga relação comercial com o Brasil, atualmente o melhor mercado fora da Europa para os vinhos da empresa. A primeira importação para o Brasil, para o Rio de Janeiro, aconteceu em dezembro de 1756, no mesmo ano de fundação da vinícola. Portanto, uma história de 257 anos. 

“No Brasil houve um crescimento significativo do vinho do Porto na última década. Só no ano passado é que as vendas caíram um pouco”, informa Pedro Silva Reis, presidente da Real Companhia Velha. Depois de uma venda recorde registrada no início da década de 2000, as vendas desse produto vêem apresentando uma pequena queda. No entanto, têm caído menos que outras bebidas congêneres, observa o produtor. “O que nos deixa bastante entusiasmados para que brevemente possa haver uma retomada”, afirma Reis.

 Pedro Silva Reis, presidente da RCV
A queda, no entanto, acontece nos produtos básicos das linhas Ruby e Tawny. “Dentro das categorias especiais, de gama média e reserva, tem se verificado alguns crescimentos importantes que, de certo modo, têm compensado a queda”, continua Pedro Silva Reis. Entre as categorias que cresceram estão o LBV e os reservas Tawny e Ruby. Já na categoria Douro DOC, onde estão os vinhos  tranquilos brancos e principalmente tintos, as vendas vão bem.  “A Real Companhia Velha tem muita tradição no Brasil”, conclui o produtor.

Vinhos

Provei os vinhos do Porto e alguns vinhos tranquilos, durante um almoço na Real Companhia Velha, onde estive em junho deste ano a convite do projeto Douro/Estrela. A seguir as notas de prova de três vinhos.

Foto de João Lombardo

Quinta do Cidrô Alvarinho Douro 2012
Composição: 100% Alvarinho.
Teor alcoólico de 13%.
A Alvarinho é uma novidade no Douro. Esse vinho de cor palha dourada mostra uma agradável composição aromática de frutas amarelas, inclusive frutas tropicais, notas florais e minerais.
Tem uma boca com acidez muito gostosa, cheia e frutrada. Além da mineralidade. Não fica atrás dos Alvarinhos do Minho e mostra que a casta, típica de regiões mais úmidas, pode se dar bem também em climas extremos.

Foto de João Lombardo

Carvalhas 2010 DOC Douro
Composição: Viosinho, Gouveio, Rabigato, Vinhas Velhas.
Teor alcoólico: 14,5%
Vinho de cor amarelo dourado. Aromas de frutas amarelas maduras, notas de especiarias como o gengibre, toques minerais.
A boca é fresca, mineral, com boa sapidez, longa e equilibrada.

Foto de João Lombardo

Quinta dos Aciprestes 2007 DOC Douro
Composição: Touriga Nacional e Touriga Franca.
Vinho de cor rubi/rubi. Nariz com aromas de frutas vermelhas maduras, floral de violeta, especiarias doces, notas de chocolate e minerais. Nariz complexo.
Boca com agradável acidez, sápida, com taninos finos. Vinho muito equilibrado.




quarta-feira, 24 de julho de 2013

Alvarinho da Campanha Gaúcha


Provei ontem o Alvarinho Quinta do Seival 2012, feito pela Miolo no município de Candiota, Campanha Gaúcha. Quem diria que o Brasil faria Alvarinhos! E esse ganhou tipicidade tupiniquim, com a predominância de notas olfativas de frutas tropicais. Em boca, conjugou agradável frescor e maciez, esta última resultante da fermentação e estágio do vinho por 10 meses em barricas novas de carvalho francês, sofrendo sucessivas bâtonnages (agitação das borras finas pós-fermentativas). Um processo menos comum no Minho e na Galícia, as grandes pátrias do Alvarinho. Mas também utilizado por alguns enólogos, que fermentam e estagiam seus Alvarinhos em madeira, em busca de outros estilos. O resultado, no caso desse Miolo, é um vinho gostoso, que harmonizou muito bem com uma "Quenelle de Peixe em Bisque de Camarões", preparado pela chef Joyce Francisco e sua equipe, no Joy Joy Bistrot, em Florianópolis. Uma noite em que foram apresentados por Adriano Miolo vários vinhos da vinícola, entre eles o Shiraz Testardi 2012, do Vale do São Francisco, e o Lote 43 safra 2011, da Serra Gaúcha. O jantar, em toda sequência, estava muito saboroso.

Sou fã da Alvarinho. Concordo com o crítico português Rui Falcão: essa é uma das grandes uvas brancas do mundo, ao lado da Chardonnay, Sauvignon, Chenin Blanc e Gewürztraminer. No Minho seus vinhos são frutados, cítricos, florais e minerais, com boca fresca e intensa. Na Galícia, são frescos, frutados, cítricos, igualmente intensos. Já provei Alvarinhos feitos no Douro e até no Alentejo. O Uruguai, mais especificamente a família Bouza, faz um Alvarinho muito gostoso também aqui pelo Cone Sul. Uma casta que envelhece muito bem.

Tive a honra de poder integrar o juri do Alvarinho International Wine Challenge 2011, realizado em Melgaço, no Minho, Portugal. Numa degustação, dentro da programação, fomos brindados com Alvarinhos com idades de até 19 anos (matéria "Alvarinho, Vinhos com Vocação para a Guarda", no joaolombardo.blogspot.com). Entre os vinhos estavam algumas safras do Soalheiro e Dona Paterna. Todos fantásticos. Minerais, provocativos, intensos e com a acidez muito viva. Gosto muito dos Alvarinhos de Anselmo Mendes, um dos enólogos portugueses que conhecem profundamente e trabalham muito bem as qualidades dessa casta. Aliás, Anselmo anda pela Campanha Gaúcha e pela serra de Santa Catarina, onde presta assessoria para as vinícolas da família Hermann, proprietária da importadora Decanter, de Blumenau. Então, vou fazer uma torcida: que venham mais Alvarinhos brasileiros para, ao lado dos vinhos de além mar, possibilitarnos conhecer as várias características dessa uva pelo mundo!

sábado, 20 de julho de 2013

Evolução e Revolução na Vitivinicultura Chilena



Vinhedos da Vik, em Milahue, Colchagua (foto de divulgação)

A vitivinicultura chilena vive um período de grande movimentação e transformações, mudanças que se intensificaram nos últimos cinco anos. País de vitivinicultura tradicional, com mais de 450 anos, os produtores andinos decidiram, neste milênio, investir em novos estilos de vinhos. Eles começaram a plantar uvas em regiões mais frescas, áreas costeiras, vales extremos e zonas aos pés da cordilheira dos Andes. Os resultados estão sendo vistos em vinhos com maior expressão de fruta e menores teores alcoólicos, por exemplo. E em varietais como Sauvignon Blanc, Pinot Noir, Carignan, Petit Verdot  e Syrah, castas que até meados da década passada tinham pouca ou nenhuma expressão no país.

“A tendência no Chile, hoje, é buscar zonas diferentes. Atualmente, as zonas frias estão em alta, principalmente aquelas próximas à costa”, afirma Joana Pereira, enóloga da viña Bisquertt Family Vineyards. Localizada no Vale de Colchagua, a empresa cultiva as castas clássicas francesas e produz as linhas de vinhos Petirrojo Reserva, La Joya, Ecos de Rulo Single Vineyard, o corte Clay Syrah/Cabernet Sauvignon e o Tralca, um corte de Cabernet, Carménère e Syrah. Até quatro anos atrás, La Joya era a única marca da empresa. Mas a Bisquertt está investindo forte nesse novo momento.

Errazuriz (arquivo de João Lombardo)

Na centenária Errazuriz não é diferente. A empresa, responsável por marcas importantes como Seña, Aborleda, Viña Chadwick e Caliterra, além da própria Errazuriz, atravessa uma fase de mudanças, nas palavras do enólogo Pedro Contreras. “Está havendo uma evolução e uma revolução no Chile. Está ocorrendo a busca por lugares extremos para produzir vinhos de caráter”, afirma. Para Contreras, aconteceram mudanças importantes nos últimos três anos, no país. Essas mudanças estão alterando o perfil de parte dos vinhos chilenos, normalmente muito estruturados e marcados pelas notas vindas das barricas novas de carvalho. Estudos de solo estão dentro dessa fase de aprendizado, nesse novo momento. Assim como a melhor utilização da irrigação, das barricas etc.

Na também centenária Viña Santa Carolina, além da aposta nos vales mais frescos, está se investindo na renovação de castas antigas, como a Carignan. A vinícola tem no mercado seu Santa Carolina Dry Farming Carignan 2009, elaborado com uvas do Vale de Cauquenes. Os vinhedos estão a 450 km ao sul de Santiago, no chamado “secano costeiro”. As vinhas são antigas, têm cerca de 70, 80 anos e não são irrigadas. Elas também não têm condução, são pequenos arbustos, chamados de vaso, na Espanha, ou alberello, na Itália. O resultado é um vinho muito fresco, repleto de frutas vermelhas, notas de pinheiro e especiarias doces. Um vinho frutado, em boca, com corpo agradável e taninos leves.

“Essa é uma variedade potencial. Mas a produção é muito pequena. É, portanto, um vinho para mercados diferentes”, afirma o enólogo Iván Martinovic T, da Santa Carolina. A vinícola também investe em um vinho de Mourvèdre e ainda nas castas Syrah e Petit Verdot, como varietais.

 Chilcas País (foto arquivo de João Lombardo)

A Via Wines, no Vale do Maule, é outra empresa que busca dar vida nova à uva País, também conhecida como “Criolla” na Argentina. A bodega tem um varietal sob o rótulo Chilcas feito com a uva cultivada no interior do Vale do Maule. A casta, que seria a mesma Listán Prieto espanhola, foi introduzida no Chile no século XVI. E hoje é tratada como uma uva dos velhos tempos. “Queremos recuperar essa variedade, para fazer um vinho que seja rico”, afirma o enólogo chefe da bodega, Camilo Viani. O vinho produzido com ela é agradável, frutado, com sutis notas de especiarias como a pimenta e toques terrosos. Tem boa acidez, médio corpo e taninos presentes, sem serem agressivos. O resultado ficou bom. Miguel Torres, nome famoso na vitivinicultura chilena, também tem um espumante à base de País. Empresas quebrando o preconceito, provocando uma reviravolta na viticultura de seu país.

Em outra vinha muito antiga, a Santa Rita, a enóloga Cecília Torres afirma que o Chile tem grande potencial para fazer coisas diferentes. “Estamos como os adolescentes, numa busca constante. E vai chegar uma hora em que atingiremos a maturidade. E então teremos uma personalidade Chile”, afirma a enóloga. Ao comentar sobre a volta da Carignan, ela disse achar interessante os vinhos dessa casta produzido em áreas costeiras. Cecília acredita haver espaço para outras uvas no país. Por exemplo, para castas portuguesas. Segundo a enóloga, o sul do Chile é uma direção importante para os viticultores. “Temos que nos mover para lá”, sugere.

Apesar de falar em novas uvas, Cecília Torres faz questão de mencionar a casta da tradição chilena, o Cabernet Sauvignon. “Trata-se de uma uva muito completa e complexa. Uma casta de muita elegância e potencial para envelhecer, que pode parar em qualquer mesa do mundo”. Essa é uma grande uva para a Santa Rita, que gera vinhos que contruíram o nome e o prestígio da casa. E também para o Chile. O Cabernet Sauvignon chileno é um vinho com personalidade própria, agradável, com caráter. O que não impede as empresas de investirem em outras uvas e ousar.

 Vinhedos de Carménère na Vik (foto de divulgação)

Até mesmo o Carménère é alvo de mudanças. Casta que gera vinhos com notas remetendo a frutos maduros, especiarias e toques vegetais, algumas bodegas estão produzindo Carménères mais frescos, com fruta viva e praticamente sem o tradicional herbáceo que faz parte do perfil organoléptico dos vinhos. É o caso da Viña Maquis, localizada no Vale de Colchagua. Os 140 hectares de vinhedos da empresa estão localizados entre os rios Tinguiririca e Chimbarongo. “É um lugar único. Os solos têm alto conteúdo de argila com gravas, que asseguram excelente drenagem”. afirma Ricardo Rivadeneira Hurtado, enólogo e diretor da empresa.  Segundo ele, essa condição permite à uva Carménère amadurecer mais cedo e, portanto, ser colhida também mais cedo. No Chile, a Carménère costuma ser colhida até maio. Na Maquis, a colheita ocorre em março.

“Aqui os Carménères são especiais”, acrescenta Hurtado. “A maioria dos Carménères do Chile está representada por vinhos maduros, com taninos redondos e gosto mais a geléia do que a fruta fresca. No nosso caso, buscamos vinhos frescos, com mais aromas frutados e florais, grau alcoólico menor e acidez natural um pouco mais elevada”, afirma o enólogo. Um estilo de Carménère diferente.

Patrick Valette (ex-Château Pavie) e Gonzague de Lambert (ex-Château de Sales) estão trabalhando na produção de um vinho de alta qualidade no Vale de Cachapoal, o Vik. Uma vinícola de propriedade do empresário norueguês Alexandre Vik, instalada dentro de uma área de 4.325 hectares. Um vinhedo de 390 hectares que, para ser plantado, aguardou a realização de 4.500 perfurações, em diferentes áreas da propriedade, para análises de solo. O objetivo era encontrar os melhores microterrenos para cultivar cada variedade. Ali estão plantados Cabernet Sauvignon, Carménère, Cabernet Franc, Merlot e Syrah. Uvas utilizadas na produção do Vik, um vinho de assemblage elaborado através de uma vitivinicultura de precisão.

 O Vik (foto de divulgação)

“O Chile tinha vinhos mais industriais, necessários. O país ofereceu e oferece muitos bons produtos, por preços razoáveis. Mas, ao mesmo tempo, o Chile está passando por uma evolução”, afirma Patrick Valette. O enólogo comenta que todo mundo está acostumando a olhar o Chile de Norte a Sul. Ele prefere ver o país de Leste a Oeste. Ou seja, analisar o país vitícola sob o ponto de vista da influência do Oceano Pacífico e da Cordilheira dos Andes sobre as vinhas. Para o enólogo, essa influência é mais importante para a vitivinicultra, a que faz a diferença no quesito terroir.

Patrick Valette afirma que, hoje, os profissinais do vinho no Chile respeitam muito mais o conceito de terroir que no passado. “Eu diria que hoje há um conhecimento e uma prática do conhecimento”, afirma. Segundo ele, o país se transformou num produtor muito estruturado e profissional. “O resultado é um trabalho muito mais preciso do que no passado”. A Vik é um exemplo. E também os vinhos de vinícolas que estão investindo nessa nova fase. Vinhos, como se disse, mais frescos e frutados, menos alcoólicos, mais gastronômicos. Um país vitivinícola consolidado, num processo de redescobrimento e transição.

(Matéria escrita por mim e publicada no jornal Vinho & Cia, na edição Inverno 2013)



quinta-feira, 4 de julho de 2013

"Lisbon Revisited": Café Nicola



O Café Nicola é um dos lugares emblemáticos de Lisboa. Ele fica no Rossio e, sentado junto a uma de suas mesas, do lado de fora, é possível admirar as muralhas do Castelo de São Jorge e a região da Baixa Lisboeta. E, ali, provar algumas delícias portuguesas, como uma boa fatia de queijo cremoso da Serra da Estrela, de entrada. E o Bacalhau a Nicola, prato da casa, onde uma posta alta e bem assada de bacalhau chega à mesa mergulhada em suculento e saboroso molho de natas, guarnecida com batatas crocantes. E, claro, acompanhada de um (ou uns?) bom copo de vinho. 

Foi um italiano de nome Nicola o primeiro dono do estabelecimento, conhecido, inicialmente, como Botequim do Nicola. Escritores, poetas, artistas e malditos tornaram-se habitués do local. Entre eles, Manuel Maria Barbosa du Bocage, o famoso poeta Bocage. Nos fundos do salão interno do café há uma estátua do Bocage, sobre um pedestal alto. Também conhecido como o Boca do Inferno, Bocage escreveu sátiras mordazes contra tudo e todos. Satirizou, inclusive, situações envolvendo ele próprio. Conta-se que certa noite, tendo saído do Nicola, foi abordado por um homem que, com uma arma em punho apontada para ele, perguntou: "quem és, de onde vens, p'ra onde vais"? Bocage, com a irreverência de sempre, teria respondido: "sou o poeta Bocage, venho do Café Nicola e vou para o outro mundo se disparas a pistola". Uma pitada de bom humor, que faz parte das histórias que cercam o agradável Café Nicola, com seu gostoso cardápio e boa carta de vinhos, na movimentada área central de Lisboa!

sábado, 8 de junho de 2013

Guatambu: vitivinicultura de precisão na imensidão do pampa




Foi oficialmente inaugurada no último dia 7 de junho em Dom Pedrito, Rio Grande do Sul, a Guatambu Estância de Vinhos. A vinícola familiar, comandada por Valter José Pötter e sua filha Gabriela, com a participação das irmãs Isadora, Mariana e Raquel, é fruto de um projeto que começou há 10 anos, com a formação de um vinhedo de Cabernet Sauvignon em meio a uma fazenda de criação de gado de raças britânicas, ovelhas e onde se plantam cereais como arroz, milho e soja. Hoje, são 22 hectares de videiras das variedades Cabernet Sauvignon, Merlot, Tannat, Pinot Noir, Tempranillo, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Gewürztraminer. Vinhedos cultivados sobre solos pedregosos, em planícies e suaves colinas. Videiras abençoadas pelo protetor e refrescante vento Minuano. Micro terroirs minuciosamente pesquisados dentro de uma propriedade de 4,5 mil hectares, para buscar os melhores frutos e, com eles, produzir vinhos de qualidade.

A Guatambu colocou, numa degustação vertical, para um grupo de jornalistas brasileiros, o Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon de seis safras: 2007, 2008, 2009, 2011, 2012 e 2013. Esse é o vinho emblemático da empresa. Também foi colocado em degustação um vinho ainda em amadurecimento, o Épico, resultado de um corte de Tannat, Cabernet Sauvignon e Merlot. No corte foram mesclados vinhos das safras 2011, 2012 e 2013. E foram servidas ainda as safras 2011 e 2012 do espumante Guatambu Nature, produzido pelo método Champenoise. Os espumantes revelaram notas frutadas, toques florais e de leveduras. O 2011 apresentou um agradável tostado e uma complexidade própria do envelhecimento. O 2012 estava mais vivaz. Em boca, boa cremosidade e acidez. Os Cabernets mostraram evolução vitícola, consistência enológica e uma tendência, nas novas safras, a caminho de um estilo mais novomundista. Revelaram agradável frescor, leque aromático com notas frutadas e especiadas, bom volume em boca e taninos elegantes. O Épico apresentou estrutura, complexidade aromática e uma bem-vinda promessa de longevidade.


Foi lançado, por ocasião da inauguração da vinícola, o Tannat Rastros do Pampa 2012. Um vinho fresco e frutado, diferente de Tannats franceses e uruguaios. Um excelente companheiro para pratos mais estruturados elaborados com carnes de gado, ovelha e cordeiro. Mas também agradável para o copo e para a conversa, por não se tratar de um Tannat pesado, corpulento. Foi lançado também o espumante Guatambu Rosé Brut, um corte de Gewürztraminer com Pinot Noir, elaborado pelo método Champenoise. Um produto alegre, frutado e floral. Um vinho do prazer, companheiro de petiscos leves e preparos com frutos do mar. A vinificação está a cargo dos enólogos Alejandro Cardozo e Javier Gonzalez.

A Guatambu entra no mercado com um projeto consistente. A vinícola é auto sustentável. Na bela edificação, em estilo espanhol colonial, foram utilizados tijolos e materiais de demolição de casas da Campanha. A energia elétrica já vem parcialmente e virá totalmente da luz solar. A água é captada das chuvas, tratada e reaproveitada. A empresa pratica o Plano de Alimento Seguro (PAS).

A estrutura comporta espaços para o enoturismo e enograstronomia. Há um amplo salão com churrasqueira, para a recepção de visitantes, degustações e realização de eventos. A idéia e combinar a culinária típica regional (que contempla a tradicional parrilla e pratos como espinhaço de ovelha) com os vinhos produzidos na Estância. E também oferecer atividades como cavalgadas, por exemplo.

O espaço enogastronômico 

Com 100 mil garrafas de vinhos disponíveis para o mercado, este ano, e projeção para 170 mil, em 2014, a vinícola dedica 50% da produção aos espumantes. Os estilos são Extra Brut, Nature, Brut, Demi-sec e Rosé, sob os rótulos Gatambu e Poesia do Pampa. Os outros 50% da produção vêm dos vinhos tranquilos. São eles os tintos Rastros do Pampa Cabernet Sauvignon, Tannat e Merlot; o Luar do Pampa, um varietal de Gewürztrminer, e o Vinho da Estância, um produto clássico, corte de Cabernet Sauvignon, Tannat e Tempranillo. Tem ainda o Épico, que levará um pouco mais de tempo para chegar ao mercado. Ao todo, são dez rótulos disponíveis hoje. Uma vinícola para reforçar a presença e o estilo da Campanha Gaúcha no cenário do vinho brasileiro. Uma empresa que conjuga a simplicidade do pampa com a mais moderna tecnologia vinícola disponível no planeta.


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Carménères mais frutados


O Carménère é um vinho que nunca chamou tanto minha atenção. Apesar do perfil macio e agradável, sempre achei um pouco destacada aquela tradicional nota verde dos varietais elaborados com a uva. Pude provar, agora em viagem pelo Chile, Carménères diferenciados, mais frescos, frutados, especiados e até mesmo florais. Vinhos onde o toque vegetal, às vezes imperceptível, às vezes sutil e bem integrado, somou-se às demais camadas aromáticas, compondo uma rica complexidade. Interessante saber que os produtores chilenos continuam trabalhando a casta, identificada em meio aos vinhedos de Merlot, há cerca de 20 anos. É muito bom saber que eles estão buscando maior frescor e leveza nos varietais produzidos com ela. É uma casta cujos vinhos ainda estão em construção. Não que eles estejam sendo maquiados, muito pelo contrário. Há um trabalho de encontrar novos terroirs para as uvas. E, assim, produzir novos estilos de Carménères, a partir de uvas diferenciadas. Vinhos mais vibrantes. O que muda minha opinião a respeito desses produtos. Acima, o Carménère Maquis, cujas uvas são colhidas em março, dois meses antes do período em que a grande maioria dos produtores colhe, em maio. Isso, pela particularidade do terroir onde está o produtor, em Colchagua. É pena que esse vinho ainda não tenha chegado ao Brasil.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Peru e Vinhos



O peru é um símbolo nas festas de final de ano. A ave costuma fazer a felicidade e alegrar o apetite das famílias, nas comemorações natalinas. E, apesar da tradição de se comer mais carne suína na passagem de ano (um animal que fuça para frente), muita gente prepara também a ave no réveillon. E a serve bem recheada de farofa e decorada com frutas frescas, frutas secas e em calda.

A carne de peru pode ser muito bem acompanhada por vinhos. Para escolher o vinho adequado, deve-se ficar atento às sensações aromáticas e gustativas do assado. E também de tudo que o acompanha. E buscar um vinho sinérgico.

A carne de peru é magra. A gordura está concentrada na pele. Portanto, não são necessários vinhos com elevados teores de acidez e de álcool, elementos que atacam gorduras e limpam o paladar. Nem vinhos tânicos, pensando em tintos. Taninos são parceiros de preparos mais gordurosos.

A carne de peru tem tendência doce, traz ao paladar uma lembrança doce. Nesse caso, os vinhos macios são os mais indicados. Vinhos mais ácidos, diante de uma tendência doce, podem elevar, no paladar, a sensação de acidez. E não ficar agradáveis.

O peru costuma ser servido com frutas secas, como passas, ameixas e figos. Essas frutas tendem também ao doce. Outras frutas trazem lembranças cítricas e tendência sutilmente ácida, como os damascos. Vinhos macios combinam tanto com frutas secas como com frutas com notas um pouco mais ácidas. E não brigam com doçuras vindas de fios de ovos e cerejas ao maraschino.

Normalmente, o peru é recheado com farofa. A farofa leva uma boa dose de gordura (manteiga ou azeite) e pode ser feita com bacon e/ou miúdos. Gordura e untuosidade pedem uma ponta de acidez, nos vinhos, para desfazê-las. E um bom teor alcoólico e/ou taninos, para enxugá-las.


O peru, com o conjunto de sabores que o acompanha

Com base nisso, concluímos que a carne de peru combina com vinhos macios, com bom teor alcoólico (a partir de 12,5%, por exemplo), média estrutura e, de preferência, alguma passagem por barricas de carvalho, o que aumenta a complexidade da bebida.

Pensando em vinhos brancos, aqueles feitos com a uva Chardonnay, com passagem por barricas, são excelentes companheiros para o peru assado. Mas há outros: um italiano Vernaccia di San Gemignano, portugueses da uva Encruzado e espanhóis de Macabeo, também com passagem pelo carvalho. Algumas sugestões em branco, para o peru.

Ao pensar em tintos, vale a mesma regra: são indicados tintos macios, com acidez equilibrada e não tânicos. Esses tintos podem ter uma pequena passagem por barricas, mas não excessiva. O teor alcoólico pode partir de 12,5%.

Um tinto fresco, leve, com taninos macios e bom teor alcoólico, é a sugestão. O Pinot Noir é um bom começo de conversa. Um Pinot Noir do novo mundo, neozelandês, sul-africano, chileno ou argentino. E também um francês ou italiano, não muito estruturado. Um vinho jovem de Tempranillo, um italiano de Sangiovese, um macio Dão português são outras opções a serem colocadas à mesa, ao lado do peru. E de outras aves assadas, inclusive caças de pena.

Não devem ser descartadas opções que contemplem o gosto pessoal de cada um. Sempre cuidando para não colocar um tinto tânico demais ou um branco ácido demais ao lado do assado. Para ver uma receita de Peru Assado, acesse programapãoevinho.blogspot.com. Para ver o preparo da receita e vinhos para acompanhar, acesse:

http://youtu.be/khAALFQzGhw

Saúde e bom apetite!