quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

La Poja e os vinhos de Valpolicella


A Villa della Torre, da família Allegrini (foto João Lombardo)

A Corvina Veronese é uma das principais uvas autóctones italianas. É uma variedade da região do Vêneto. Uma casta muito versátil, que gera vinhos em vários estilos, dos mais leves, como o popular Bardolino, passando pelos Valpolicellas e chegando aos grandiosos Amarones. E também o doce Reciotto di Amarone della Valpolicella. Recentemente tive a oportunidade de provar um cru feito com a Corvina, o La Poja Allegrini IGT 2008.

O grupo Allegrini possui quatro empresas e 240 hectares de vinhedos distribuídos entre o Vêneto e Toscana. Visitei a Villa della Torre, em Fumane di Valpolicella, a 15 quilômetros de Verona. Ali, tive o prazer de provar o La Poja 2008, o  Palazzo della Torre 2010 e o Amarone della Valpolicella 2010, cujas notas de prova aparecem abaixo.  Provamos também o o Valpolicella clássico 2012, um vinho agradável, bom para o copo e para a mesa italiana. A degustação foi acompanhada por fiambres, queijos e pães típicos da região. A recepção foi muito agradável.

La Poja


O La Poja é um vinho feito 100% com uvas Corvina Veronese colhidas na parte mais alta do vinhedo La Grola, em Sant’Abrogio di Valpolicella, província de Verona. A área do vinhedo é de 2,65 hectares. As videiras estão plantadas na colina, sobre um solo de puro calcário (78,5%), na porção La Poja. Este é o vinho ícone da Allegrini. Vale lembrar que esse não é o único cru da empresa. A Allegrini aposta em terrois específicos e produz outros crus. Entre eles o Palazzo della Torre e o La Grola.

O La Poja 2008 foi vinificado em inox e passou 20 meses em barricas novas de carvalho francês. É um vinho longevo, com capacidade de guarda de 20 anos, segundo o produtor.

No copo, ele justifica a fama. Do líquido de cor rubi luminoso brotam aromas de frutas negras maduras, com destaque para a cereja escura. Revelam-se também notas de especiarias doces, ervas aromáticas, couro, algo mineral e balsâmico. Um vinho bastante complexo, delicado, que aos poucos vai revelando suas camadas aromáticas. A boca revela excelente corpo e frescor, uma acidez deliciosa. Os taninos são presentes e redondos, o final longo.

Esse é um vinho emblemático do Vêneto. Um grande companheiro para queijos de média maturação, pratos de carne, inclusive cordeiro e caças de pelo, molhos encorpados, receitas com funghi.

Palazzo della Torre


Provamos também o  Palazzo della Torre, outro cru da Allegrini. Esse vinho é produzido na Villa della Torre, um complexo renascentista do século XVI, com um belo pátio interno inspirado na arquitetura romana. Tive o prazer de provar os vinhos naquele local histórico e contagiante de propriedade da família Allegrini.

O Palazzo della Torre Vernonese IGT 2010 é um ripasso (vinho com duas fermentações) elaborado 70% com Corvina Veronese, 25% Rondinella e 5% Sangiovese. A primeira fermentação acontece com 70% das uvas, estas frescas, colhidas no final de setembro. A segunda fermentação é realizada com 30% de Corvina em passa, depois de terminada a primeira fermentação. Encerrado o processo, o vinho segue para barricas de carvalho francês de segundo uso, para um estágio de 15 meses.

O resultado é um vinho de cor rubi com halos violáceos, aromas de cerejas e frutas negras maduras, especiarias doces, lembranças balsâmicas remetendo a louro e menta, alcaçuz. A boca é fresca e sápida, com agradável corpo e equilíbrio, frescor gostoso, taninos presentes e elegantes. Um vinho para receitas da culinária italiana e internacional à base de carnes, queijos maduros, massas com molhos encorpados, como o ragù.

Amarone


O Amarone della Valpolicella Classico DOC 2009 também foi incluído na degustação. O Amarone é o grande vinho da região de Valpolicella. E esse da Allegrini é sempre uma referência. As uvas, plantadas nas encostas das colinas da zona do Valpolicella Classico, estão sobre um solo rico em calcário. O vinho foi elaborado com 80% de uvas Corvina Veronese, 15% de Rondinella e 5% de Oseleta. Para secarem, os cachos são levados para salas especiais (frutaio) e colocados sobre esteiras. As uvas passam por um processo de desidratação, no qual perdem entre 40% e 45% de líquido e peso. Com isso, concentram ácidos, açúcares e taninos. As uvas-passas são fermentadas e o vinho gerado estagia por 18 meses em barricas novas de carvalho francês.

O resultado é um vinho potente, com 15,8% de álcool, cor rubi violácea intensa, notas aromáticas de frutas negras maduras, frutas em passa, geléia, chocolate, chá preto, alcaçuz, especiarias em geral, toque mineral. A boca é potente, fresca e sápida, os taninos, marcantes e elegantes, o final é longo. O Amarone é um vinho com uma legião de fiéis. Particularmente, sou fã do Amarone

Esse vinho é ideal para acompanhar pratos intensos e encorpados de massas, carnes (inclusive cordeiro e caças de pelo), queijos maduros e até mesmo uma brasileiríssima feijoada.

O Amarone é um dos tripés da enologia italiana. Um dos vinhos de meditação italianos, para se apreciar e beber em paz. E, vendo seu reflexo na superfície do vinho, pensar nas coisas boas da vida.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Posip, um vinho da terra de Marco Polo




Bebidas e preparos culinários costumam estar rodeados de história. E também de histórias, umas mais interessantes, outras simples. É o caso do vinho. A macro história do vinho é fascinante. Ela pode ser comparada a um grande guarda-chuvas que abriga centenas/milhares de pequenas histórias.

Pude vivenciar uma dessas pequenas histórias dia desses, quando tomei um agradável vinho branco da Croácia, o Posip Cara 2013, feito com a uva autóctone Posip. Um vinho da ilha de Korcula, costa da Dalmácia, no mar Adriático, elaborado com uvas do vinhedo Cara pela “Posip” Cooperativa Agrícola. Uma área com indicação protegida, cravada na ilha apontada por historiadores como o possível lugar de nascimento do navegador Marco Polo.

Peguei a garrafa com uma boa dose de expectativa e um toque de ceticismo. Costumo ter esses dois sentimentos quando olho o rótulo de um vinho que desconheço. Vinho é expectativa. E antes de abri-lo, começo a imagina-lo. O que me espera? Um grande vinho, um vinho cotidiano, um vinho diferente? Isso é fascinante. O Posip Cara 2013 é feito com a casta branca Posip. Gosto das uvas autóctones. Elas são identificadas com áreas únicas de produção. E geram vinhos igualmente únicos. A Posip foi considerada durante muito tempo uma uva secundária. Mas teve seu valor reconhecido e hoje é vista como uma branca notável, a partir de seu país de origem.

A vitivinicultura, na Croácia, foi implantada pelos gregos há cerca de 3 mil anos. O período coincide com a vitivinicultura grega no sul da Itália, no território da Enotria. São países vizinhos. Outros povos habitaram a região: ilírios, romanos, godos e bizantinos. O vinhedo de Cara está localizado a 3 quilômetros do mar e goza de um clima mediterrâneo, com invernos frios, primaveras às vezes chuvosas, verões longos e quentes e outonos frescos. É nesse cenário que a Posip frutifica.

Outra uva autóctone croata, esta tinta, é a Plavac-Mali, um cruzamento natural da Crljenak Kastelanski (Zinfandel) com a casta Dobricik. Uma variedade que gera vinhos complexos e estruturados, que hoje começam a ganhar e conquistar apreciadores da bebida pelo mundo.

Depois de me informar sobre esse contexto, cravei o saca-rolhas na cortiça e comecei meu ritual de abertura do Posip Cara 2013. Estava na hora de desvendar o vinho. Tirei a cortiça, de boa qualidade, e servi uma pequena dose no copo. A cor mostrou-se atraente, um amarelo já com notas douradas, o aspecto límpido e brilhante. Gostei. Os aromas foram se revelando. Primeiro, notas frutadas de pêssego e damascos. Em seguida, agradáveis aromas cítricos, inclusive um cítrico doce, lembrando limão confitado. Ao fundo, uma sutil nota verde. E, por último, notas amendoadas. Um vinho de perfumes agradáveis.

A boca confirmou o nariz e mostrou-se fresca, frutada e cítrica. O vinho revelou untuosidade no paladar, uma conjugação de frescor e maciez. As notas amendoadas do nariz confirmaram-se no final de boca. Um vinho de persistência média/longa, bastante agradável, equilibrado e harmônico.

Combinei o Posip Cara 2013 com um suculento e perfumado spaghetti ai frutti di mare. Um casamento sem risco de erro. Ficou delicioso. Aromaticidades compatíveis e limpeza perfeita do paladar. Este é um vinho sinérgico aos preparos com pescados e frutos do mar. Um vinho para o verão, para o clima e receitas litorâneas brasileiras.

Fiquei satisfeito. Descobri um novo vinho, de uma uva autóctone. Mergulhei em mais um pequeno espaço do macrocosmo vitivinícola. E tive o prazer de saborear não apenas a bebida, mas também sua história e particularidades. Algo que tornou o rótulo, sem dúvida alguma, mais interessante. Minha maneira particular de provar e buscar conhecer um pouco mais da cultura desse e outros vinhos. Um prazer além do rótulo. 

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

O adeus e uma homenagem a um dos maiores e mais antigos sushimans do Brasil



Florianópolis e o Brasil perderam um grande sushiman. Noriaki Kagoiki ou Mário Kagoiki, do Restaurante Nipon, partiu. O Nippon fechou suas portas, na capital catarinense, há algum tempo. Mário não estava mais trabalhando, por problemas de saúde. O Nipon não foi o primeiro restaurante oriental de Florianópolis, mas foi o primeiro especializado exclusivamente em culinária japonesa. Desde que abriu as portas, inicialmente nos Ingleses, depois na Lagoa e, por último, em Canasvieiras, a casa sempre manteve o padrão: peixe fresco, cortes perfeitos, montagem clássica, com uma inovação: os bolinhos de sushi eram cortados ao meio, para facilitar o ato de comer.

O Nipon começou em Brasília, há mais de 40 anos, na 413 Sul, com os mesmos Mário e dona Miyoshi, sua esposa. Foi no Bloco A da quadra 403 Sul, o segundo restaurante do casal, que comi o primeiro sashimi/sushi da minha vida, feito pelas mãos do Mário. Ali, iniciei-me na culinária japonesa, sempre atendido pela simpática dona Miyoshi. Foi no Nipon de Brasília que provei também meu primeiro tempura, meu primeiro teppan-yaki, meu primeiro sukiyaki, meu primeiro yakitori. Para citar alguns. Só a sobremesa saía da ementa japonesa. Para mim, a melhor banana flambada e o melhor profiteroles eram feitos no Nipon, pelas mãos de dona Miyoshi.

Frequentei o restaurante por alguns anos, enquanto morei em Brasília. E, na verdade, não conheci o Mário na capital federal. Isso aconteceu em Florianópolis, num encontro casual no restaurante Miyoshi.

Quando cheguei em Florianópolis, há 23 anos, não encontrei nenhum restaurante que preparasse sushi e sashimi. Foi o Miyoshi, especializado comida chinesa, na SC 401, que começou a servir sushi, um preparo muito pouco conhecido e habitual em Florianópolis, à época. Um dia fui almoçar no Miyoshi e, por uma dessas felizes coincidências da vida, vi dona Miyoshi (que nunca teve nada a ver com esse restaurante, apenas tinham o mesmo nome) sentada com um senhor japonês. Fui até a mesa conversar com ela.

Dona Miyoshi ficou feliz em ver-me. Ela então me apresentou o senhor que a acompanhava: era o Mário, o sushiman que me iniciou nas delícias da mesa nipônica. Conversamos e o casal contou que vendera o restaurante da 403 Sul de Brasília e estava se mudando para Florianópolis, para abrir o Nipon aqui. Fiquei extremamente feliz. E voltei a frequentar o Nipon, então no bairro dos Ingleses.

Mário veio viver em Florianópolis porque, assim como o Japão, sua terra natal, é uma ilha. Ele se encantou com a paisagem, as praias, e resolveu mudar-se com toda a família. O Nipon foi inaugurado em 1995. No começo, o restaurante não tinha grande frequência. Esse é o preço do pioneirismo. Comida japonesa era novidade. E o sashimi e sushi não tinham grande saída, as pessoas não conheciam os preparos e tinham receio de comer peixe cru. No início, os habitués eram pessoas iniciadas nos peixes crus. O que se vendia mais eram os pratos quentes, como yakisoba, teppan-yaki e o sukiyaki.

O Nipon acabou mudando-se para a Lagoa, um local mais frequentado e movimentado. Ficou anos ali. Mário, depois, voltou para os Ingleses e, por último, comprou uma pousada em Canasvieiras, dentro da qual funcionou o restaurante, em seus últimos anos de operação. Foi ali que, uma vez, ele mostrou-me a faca presenteada pelo embaixador do Japão. Um instrumento de aço pesado e afiado, sua grande companheira de trabalho. Além da dona Miyoshi, é claro, também companheira de vida.

Consegui gravar um Pão e Vinho com o Mário. Tímido, ele não dava entrevistas ou participava de programas. Exercia, de maneira discreta e precisa, sua arte culinária. Em função da amizade tínhamos, abriu uma exceção. Uma honra. Isso foi em 2008. No programa, homenageamos os 100 anos da imigração japonesa no Brasil. Mário era imigrante e não teve uma vida fácil. Ele me contou que seu primeiro trabalho, aqui, foi na estiva. Um trabalho duro. Os sacos de café e caixas de banana carregados nas costas deixaram sequelas em sua coluna vertebral pelo resto da vida. Noriaki de nascimento, Mário foi o nome português adotado, quando chegou ao Brasil.

A profissão de sushiman e chef (um termo que ele nunca usou para si próprio) aconteceu em Brasília. Mario e Miyoshi abriram ali o Nipon, o primeiro restaurante japonês da capital federal. O endereço inicial foi na 413 Sul, que eu também frequentava. Esse restaurante ficou nas mãos de uma pessoa da família (e infelizmente também encerrou suas atividades, há cerca de cinco anos, depois de 37 anos de atendimento ao público). Veio o Nipon da 403 Sul. Em Brasília tinha também o Koto, do japonês Ryozo Komia, outro excelente restaurante que eu frequentava regularmente. Mario e Komia eram amigos. Komia faleceu no ano passado.

Com problemas de saúde, Mário encerrou o Nipon, em Florianópolis. Seu nome, no entanto, entra para a história da culinária japonesa na capital catarinense e no Brasil, pelo seu trabalho também pioneiro em Brasília. Um trabalho que ele fez com discrição, dedicação, profissionalismo e amor. Uma vida silenciosa, que nunca ganhou os holofotes, mas que encantou aqueles que puderam se deliciar com seus pratos. Uma pessoa e seus deliciosos preparos, para serem lembrados para sempre.

Peixes simples tornavam-se nobres iguarias no fio da faca de Mário. O macarrão frito na chapa tinha deliciosos toques tostados. O shiitake no batayaki era fantástico, com leve toque doce da manteiga. A propósito, o batayaki, o melhor que já comi. Tudo também com o toque e as mãos de dona Miyoshi.  

Como disse, o primeiro sushi que comi na vida veio das mãos do Mário, no Nipon, em Brasília, cidade onde começou e espalhou sua arte. Agora, o amigo se foi. Não tenho uma foto dele (nunca nos preocupamos com isso) e nem encontrei na internet, prova de sua discrição. Fica aqui, então, uma homenagem e uma certeza: sua pessoa e seus inesquecíveis preparos entram, agora, para o arquivo das minhas melhores lembranças.