sexta-feira, 10 de abril de 2015

Diga sim às sardinhas


 (Foto João Lombardo)

Sardinhas são saborosas e polêmicas. Conheço pouca gente que resistiria a uma sardinha assada na brasa, regada com um refrescante copo de vinho Verde ou uma cerveja gelada. Todo mundo adora. No entanto, algumas pessoas se sentem envergonhadas de confessar que adoram sardinhas. Muitas acham um peixe barato, popular, com pouco charme, que gera pratos simples. Preferem polir o português e dizer que gostam de robalo, linguado, cherne, congrio, salmão, e por aí vai.

A sardinha, de fato, é um peixe popular. Quando eu era menino e morava no interior de São Paulo, duas vezes por semana passava na minha rua uma caminhonete com a carroceria lotada de sardinhas mergulhadas em gelo. Minha mãe comprava religiosamente nas duas vezes semanais que o veículo passava. E nossa família se deliciava com esse peixe, rico em sabor e gordura boa, versátil e capaz de compor tantas receitas simples e deliciosas.

Um preparo simples e irresistível eram as sardinhas na brasa. No domingo, meu pai acendia o fogo na churrasqueira e assava as sardinhas, temperadas apenas com sal. Minha mãe tirava as espinhas e comíamos os peixes com gosto e prazer. Elas eram tostadas e tinham um leve sabor defumado. Minha também costumava enfarinhar as sardinhas, abertas em forma de borboleta, e fritá-las em azeite de oliva. Nesse caso, o sabor puxava para a tendência doce e frutada do azeite. Era muito bom!

Um preparo clássico da minha família eram as “Sardinhas com Polenta”. Minha mãe abria as sardinhas em forma de borboleta. Numa panela de fundo grosso, regava um pouco de azeite, cobria com rodelas de cebola e tiras de pimentão vermelho. Sobre essa cama, repousava algumas sardinhas, que eram cobertas com fatias de tomate fresco, ervas aromáticas, azeitonas, pimenta vermelha fatiada e alguns dentes de alho. Novamente entrava a cebola, os pimentões, as sardinhas, os tomates etc. Por último, cerca de 100 ml de vinagre, sal e pelo menos o dobro de azeite de oliva. O preparo ia para o fogo brando e cozinhava por cerca de 1 hora e meia a 2 horas. Paralelamente minha mãe preparava uma polenta firme.

Na hora de servir, os cubos de polenta eram acomodados no centro de um prato. Em cima entrava aquilo que se transformava num verdadeiro creme de sardinhas. O peixinho cozinhava até praticamente desmanchar. E aquele “molho” regava a polenta amarela, levando ao paladar um conjunto de sabores mediterrâneos, simples e plenos. Muito bom.

O cuscuz de sardinhas também era um clássico de minha casa. As sardinhas eram cozidas em azeite e temperos, quase um confit. Elas eram acomodadas nas laterais de uma forma de pudim. E aí a massa de farinha de milho untuosa e bem temperada cobria as sardinhas. Ao ser desenformado, o cuscuz exalava um perfume maravilhoso, irresistível. Devorá-lo em fatias, com as próprias mãos, era um prazer indescritível.

Mais tarde passei a fazer minhas próprias receitas com sardinhas. Uma delas foi um Spaghetti alle Sarde, na verdade não uma receita exclusiva, mas um clássico italiano. Uma massa coberta com sardinhas puxadas em frigideira com cebolas, anchovas, erva doce fresca e pinoli, entre outros ingredientes. Também desenvolvi pratos contemporâneos, como uma bruschetta coberta com sardinha empanada e molho cremoso de limão.

 (Foto de João Lombardo)

Decidi escrever sobre a sardinha devido a um fato curioso. Costumo postar em minha página do Facebook pratos que comi em minhas viagens. E postei, esta semana, fotos de sardinhas na brasa, que comi em Portugal, numa viagem para visitar a região do Douro. Fiquei impressionado com o número de curtidas, uma das postagens mais acessadas da história de minha página. E isso inspirou-me a escrever sobre o peixinhinho popular, barato, mas muito, muito saboroso. Um ingrediente que, seguramente, precisa ser melhor explorado pelos restaurantes de comida do mar. Um exemplo de como o preconceito pode privar os paladares de sabores tão ricos e reconfortantes.

Dica: pratos à base de sardinhas vão bem com vinhos brancos frescos. O primeiro a se apresentar é o Vinho Verde, da região portuguesa do Minho. O Alvarinho é outro excelente companheiro. Brancos de Sauvignon Blanc, Pinot Grigio, Grillo e Inzolia, Viúra, Riesling e Chenin Blanc.