terça-feira, 2 de agosto de 2011

Alvarinhos, vinhos com vocação para a guarda


A Alvarinho, durante a maturação

Os vinhos de Alvarinho ainda são pouco conhecidos pelos brasileiros. Casta tipicamente ibérica, a Alvarinho gera vinhos cheios e intensos, principalmente na região portuguesa do Minho e espanhola da Galícia. Produtos complexos e estruturados, com uma capacidade de envelhecimento impressionante. Vinhos que ganham com o tempo e nada devem, em qualidade, para castas brancas grandiosas, como a Chardonnay, a Sauvignon, a Chenin Blanc e a Riesling.

Pude atestar a longevidade dos Alvarinhos em junho passado, em viagem a Portugal, ao participar, como jurado, do Alvarinho International Wine Challenge. O concurso aconteceu na cidade de Melgaço, no Minho. Foram avaliadas quase 70 amostras de Alvarinhos, produzidos em Portugal, Espanha, Estados Unidos e Uruguai. Foram atribuídas 14 medalhas de Ouro, dez delas para vinhos portugueses e outras quatro para vinhos galegos. E concedidas também 24 medalhas de prata e 13 de bronze.

Paralelamente ao concurso, foi promovida uma degustação vertical de Alvarinhos, a partir da safra 1994. A degustação aconteceu na vinícola Quinta de Melgaço. Foram colocados em degustação vinhos das marcas Soalheiro (safras 1994, 1995 e 2005), Dona Paterna (1995, 2003, 2005 e 2007), Quinta do Regueiro (1995, 2002, 2003, 2004, 2005, 2007), Quintas de Melgaço (2001, 2002, 2003, 2004, 2007), Castrus de Melgaço (2005 e 2006), Poema (2005), Casa de Cerdedo (2006), Terras da Aldeia (2006), Reguengo de Melgaço (2007), Quinta Pigarra (2009) e Quinta das Alvaianas (2009). As impressões foram surpreendentes.

De um modo geral, os vinhos mostraram forte presença mineral, no olfato. Apresentaram notas frutadas maduras, nos mais velhos, e frutas frescas, nos mais jovens. O floral estava presente, de maneira mais ou menos intensa, nos vinhos.

No paladar, impressionante a preservação da acidez e, conseqüentemente, do frescor, mesmo nos vinhos mais velhos. Notas frutadas e minerais, em boca, contribuíram para a constatação da harmonia, nos vinhos. Muitos deles eram untuosos, gordos, com final longo e intenso.

Conversando com o critico português de vinhos, Rui Falcão, ele disse que as diferenças entre os Alvarinhos de Melgaço e da Galícia decorrem do clima. Segundo Falcão, nas Rias Baixas, o clima é mais oceânico, mais fresco e com menos sol. Em Melgaco, o clima é mais continental, com mais sol e calor. Isso leva a uma uva mais madura. De acordo com o critico, os Alvarinhos galegos têm aromas mais frescos e frutados. E os portugueses, remetem a frutas mais maduras e a notas minerais mais marcantes.

Impressionaram-me, muito, o Alvarinho Soalheiro 1994 e o Dona Paterna 1995. Pelo envelhecimento com elegância e a preservação da acidez e estrutura. Entre os inebriantes aromas evoluídos, que passavam por frutas muito maduras e notas de frutas secas, impressionou-me a grandiosidade dos aromas minerais dos dois vinhos. Na boca, o corpo dos vinhos estava totalmente preservado e a acidez mantinha força e presença no equilíbrio gustativo. Uma vocação para o amadurecimento em garrafa estimulante, que incentiva a compra e a guarda de Alvarinhos produzidos no Minho.

Os Alvarinhos mais jovens, a partir de 2005, mostraram frutas mais frescas, notas cítricas e, em alguns casos, toques vegetais. Os tons minerais também se mostravam ao olfato, com menos intensidade que nos Alvarinhos velhos. Uma mostra de que é possível beber Alvarinhos de diversas idades. E, em cada idade, descobrir a riqueza dessa casta e dos vinhos, intensos e longevos.

Abaixo, notas de prova de alguns Alvarinhos provados na Quinta de Melgaço:

· Soalheiro 1994 – Cor amarela com reflexos dourados. Cristalino, consistente. Nariz intenso, com aromas evoluídos de fruta muito madura, frutas secas, discretos florais, notas amendoadas e minerais marcantes. Fresco em boca, com acidez firme e final muito longo.

· Dona Paterna 1995 – Cor amarelo com reflexos dourados. Também denso e cristalino. Nariz igualmente maduro, com agradáveis notas frutadas, sutis florais e amendoados. E toques minerais marcantes, destacados, lembrando, inclusive, petróleo. Untuoso, com final vibrante em boca.

· Soalheiro 1995 – Cor amarelo com reflexos dourados. Límpido, consistente e cristalino. Nariz com frutas maduras, toques amendoados e leves florais. Mineral marcante. Boca fresca, perfeita. Leve gás. Frutado, amendoado, gordo e infinito em boca.

· Quinta do Regueiro 1999 – Cor amarelo-dourado, cristalino. Nariz com frutas tropicais maduras, floral de camomila e mineral intenso. Boca fresca, frutada, longa.

· Quintas de Melgaço 2001 – Amarelo-dourado intenso, límpido. Nariz evoluído lembrando notas medicinais e minerais. Frutas tropicais maduras (manga), notas amendoadas. Fresco e mineral também, com um corpo de agradável intensidade.

· Quintas de Melgaço 2002 – Amarelo com reflexos dourados. Consistente e límpido. Nariz elegante e intenso. Notas minerais marcantes, lembrando a petróleo, toques de frutas maduras (manga). Boca fresca, intensa e mineral. Excelente evolução.

· Quinta do Regueiro 2002 – Amarelo-dourado, límpido. Nariz com notas minerais e frutas muito maduras, como o pêssego. Floral delicado. Boca fresca e mineral, com boa intensidade.

· Quintas de Melgaço 2003 – Dourado cristalino. Nariz muito intenso, com notas de frutas frescas e maduras, toques florais e um bom mineral. Boca fresca, com expressão frutada e nota mineral.

· Dona Paterna 2003 – Amarelo dourado, límpido. Nariz com lembranças medicinais, notas levemente frutadas, floral. Boca fresca e untuosa.

· Castrus de Melgaço 2005 – Amarelo dourado, consistente, límpido. Nariz com elegante mineralidade, notas de frutas amarelas maduras, floral. Boca intensa com frutas maduras e mineralidade.

· Quinta do Regueiro 2005 – Amarelo-dourado, límpido e cristalino. Nariz mineral, com notas de frutas tropicais maduras e florais de jasmim. A boca confirma a fruta e o mineral.

· Soalheiro 2005 – Palha-verdeal, límpido, brilhante. Nariz mais fresco com notas frutas e cítricas lembrando a carambola. Floral de camomila, mineral. Bocar fresca, frutada, longa.

· Terras da Aldeia 2006 – Palha-verdeal, límpido. Notas de frutas frescas, brancas e cítricas. Discretos aromas minerais. Boca com excelente frescor e boa fruta.

· Casa de Cerdedo 2006 – Amarelho-palha verdeal. Nariz com notas frutadas frescas e florais e minerais com lembrança de petróleo.

· Castrus de Melgaço 2006 – Palha-dourado. Nariz com notas de frutas tropicais lembrando a manga, floral e mineral. Frescor firme em boca.

· Reguendo de Melgaço 2007 – Palha com reflexos dourados, cristalino. Nariz com frutas amarelas como a manga, notas cítricas, minerais. Boca fresca, com fruta tropical e acidez bastante agradável.

· Quinta do Regueiro 2007 – Palha com reflexos amarelados. Tropical em boca, lembrando a frutas como o maracujá. Boca fresca, leve, jovial. Vinho agradável.

· Quinta Pigarra 2009 – Palha cristalino. Nariz elegante, com notas cítricas e frutadas, aromas minerais e florais de camomila. Boca com agradável acidez, frutada e mineral. Longo e intenso.

· Alvaianas 2009 – Amarelo palha límpido. Aromas de frutas frescas de caroço, floral de jasmim com uma agradável lembrança de dama da noite. Fresco, frutado e intenso em boca.

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